Há uma ideia que sempre me causou alguma perplexidade: a convicção de que o sucesso financeiro confere automaticamente a alguém uma posição de superioridade perante os outros.

Como se a dimensão do património, a marca do automóvel ou o preço do relógio fossem indicadores suficientes para avaliar a qualidade de uma pessoa.

Não são.

E digo-o enquanto alguém que aprecia genuinamente as coisas boas da vida.

Gosto de bons hotéis, de restaurantes de qualidade, de automóveis especiais, de relógios e de experiências que proporcionem prazer e bem-estar. Não vejo qualquer contradição entre valorizar o luxo e defender a importância da humildade, da educação e do respeito pelo próximo.

Pelo contrário.

Sempre considerei que a verdadeira classe se revela muito mais na forma como tratamos os outros do que naquilo que conseguimos comprar.

O dinheiro compra conforto. Mas não compra educação.

Ao longo dos meus mais de trinta anos de carreira no setor bancário, tive oportunidade de conhecer pessoas das mais diversas condições económicas e sociais.

Empresários de enorme sucesso, profissionais altamente qualificados, pessoas com patrimónios significativos e outras com recursos financeiros bastante mais modestos.

Essa experiência permitiu-me compreender algo que considero fundamental: não existe uma relação automática entre riqueza e educação.

Conheci pessoas financeiramente privilegiadas cuja simplicidade, cordialidade e respeito pelos outros eram absolutamente exemplares.

Pessoas que não sentiam qualquer necessidade de demonstrar a sua condição económica e que tratavam todos com a mesma consideração.

Mas também encontrei atitudes de arrogância e superioridade, como se o dinheiro conferisse direitos especiais sobre quem se encontra do outro lado de uma relação profissional ou social.

Importa esclarecer que a arrogância não é exclusiva de quem tem dinheiro, tal como a humildade não é uma consequência automática de quem dispõe de menos recursos.

Existem pessoas educadas e mal-educadas em todos os estratos sociais.

O que me incomoda não é a riqueza.

É a utilização da riqueza como instrumento de superioridade pessoal.

O verdadeiro luxo não precisa de se anunciar

Vivemos numa sociedade em que a imagem assume uma importância crescente.

As redes sociais oferecem-nos uma exposição permanente a automóveis de luxo, relógios exclusivos, hotéis extraordinários e experiências aparentemente inacessíveis à maioria das pessoas.

Não vejo qualquer problema em apreciar esses bens ou em ambicionar conquistá-los.

O sucesso financeiro, quando alcançado de forma legítima, pode representar anos de trabalho, dedicação, disciplina e capacidade de assumir riscos.

E merece ser reconhecido.

O problema surge quando deixamos de apreciar aquilo que possuímos pelo prazer que nos proporciona e passamos a utilizá-lo como uma ferramenta de validação social.

Quando compramos para impressionar.

Quando exibimos para provocar admiração.

Ou quando precisamos de demonstrar permanentemente aos outros que pertencemos a uma categoria superior.

Acredito que existe uma diferença fundamental entre gostar de luxo e precisar de ostentar riqueza.

O verdadeiro luxo é aquele que conseguimos desfrutar sem necessidade de o utilizar para diminuir quem nos rodeia.

A forma como tratamos os outros diz tudo

Há um exercício muito simples que considero particularmente revelador do carácter de uma pessoa.

Observar como trata aqueles de quem não espera receber qualquer benefício especial.

O empregado de mesa.

A pessoa responsável pela limpeza de um quarto de hotel.

O funcionário de uma loja.

O segurança de um edifício.

Ou qualquer profissional que esteja simplesmente a desempenhar as suas funções.

É relativamente fácil demonstrar simpatia e cordialidade perante alguém influente, com quem pretendemos estabelecer uma relação comercial ou de quem esperamos obter alguma vantagem.

Mas a verdadeira educação não deveria depender da posição social ou profissional de quem temos à nossa frente.

Uma pessoa com classe não precisa de conhecer todas as regras de etiqueta, utilizar roupas de determinadas marcas ou frequentar espaços exclusivos.

Precisa, antes de mais, de reconhecer a dignidade dos outros.

De saber cumprimentar, agradecer e pedir desculpa.

De compreender que ninguém é menos merecedor de respeito por desempenhar uma função diferente ou por possuir menos recursos financeiros.

A educação revela-se sobretudo quando não existe qualquer interesse em sermos educados.

Ser exigente não significa ser arrogante

Existe uma distinção que considero particularmente importante.

Apreciar serviços de qualidade e estar disposto a pagar por eles implica, naturalmente, criar expectativas.

Quando escolho um hotel de cinco estrelas, espero um serviço compatível com essa classificação e com o preço praticado.

Quando frequento um restaurante de excelência, espero profissionalismo, atenção ao detalhe e qualidade.

E quando contrato um serviço especializado, espero competência e cumprimento dos compromissos assumidos.

Se essas expectativas não forem correspondidas, considero perfeitamente legítimo reclamar.

Aliás, acredito que a exigência dos consumidores desempenha um papel importante na melhoria da qualidade dos serviços.

Mas uma coisa é exigir aquilo a que temos direito.

Outra, completamente diferente, é utilizar a nossa capacidade financeira para justificar comportamentos desrespeitosos.

Podemos reclamar com firmeza sem humilhar.

Podemos manifestar insatisfação sem agredir verbalmente.

E podemos exigir responsabilidade sem perder a educação.

A exigência e o respeito não são incompatíveis. Pelo contrário, deveriam ser inseparáveis.

A elegância não depende do guarda-roupa

É curioso observar como tantas pessoas continuam a associar a classe à aparência exterior.

Ao fato bem cortado, ao relógio exclusivo, aos sapatos de determinada marca ou ao automóvel estacionado à porta.

Naturalmente, valorizo a apresentação pessoal e considero que a forma como nos apresentamos pode transmitir cuidado, atenção e respeito pelo contexto em que nos encontramos.

Mas a aparência não substitui o carácter.

Uma pessoa pode vestir-se de forma simples e demonstrar uma elegância extraordinária na maneira como fala, como escuta e como trata os outros.

Da mesma forma, alguém pode apresentar-se com milhares de euros em roupa e acessórios e revelar uma impressionante falta de consideração pelo próximo.

O dinheiro permite comprar objetos de luxo.

Mas não transforma automaticamente quem os possui numa pessoa elegante.

A verdadeira elegância resulta de uma combinação de educação, respeito, discrição, empatia e segurança pessoal.

E nenhuma destas qualidades depende necessariamente do património.

O sucesso não nos torna melhores do que os outros

Sempre admirei pessoas determinadas, empreendedoras e capazes de construir o seu próprio sucesso.

Acredito no mérito, no trabalho, na disciplina e na capacidade de transformar ambição em resultados.

Também acredito que devemos desfrutar daquilo que conquistamos.

A vida não deve ser apenas uma sucessão de obrigações, responsabilidades e sacrifícios.

Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer o próprio sucesso e utilizá-lo como medida do nosso valor enquanto seres humanos.

Ter mais dinheiro não significa ter mais carácter.

Ocupar uma posição de destaque não significa possuir mais integridade.

E alcançar reconhecimento profissional não nos coloca acima dos princípios básicos da convivência.

O verdadeiro sucesso deveria permitir-nos viver com maior liberdade e tranquilidade, não alimentar uma necessidade permanente de demonstrar superioridade.

A riqueza pode alterar a nossa condição de vida. Mas não deveria alterar a forma como reconhecemos o valor dos outros.

Afinal, o que significa ter classe?

Para mim, ter classe é muito mais do que possuir bens exclusivos ou frequentar determinados ambientes.

É saber estar.

É respeitar.

É reconhecer o mérito dos outros sem sentir que isso diminui o nosso.

É ser firme sem ser arrogante.

É ser exigente sem ser desagradável.

É desfrutar do sucesso sem necessidade de o transformar num espetáculo.

E é compreender que o respeito não deve variar em função da conta bancária de quem temos à frente.

Vivemos numa sociedade onde somos frequentemente incentivados a medir o sucesso através daquilo que possuímos.

Talvez esteja na altura de atribuirmos maior importância àquilo que somos.

Porque, no final, um relógio pode impressionar durante alguns segundos.

Um automóvel extraordinário pode despertar admiração.

E uma experiência luxuosa pode proporcionar memórias inesquecíveis.

Mas a forma como tratamos os outros deixa uma impressão muito mais profunda.

E, muitas vezes, muito mais duradoura.

O dinheiro pode comprar luxo. Mas não compra classe.

Pedro Bastos

SEM FILTROS — O Canal do Pedro Bastos