Alguns automóveis impressionam, outros fazem-nos sorrir…

E depois existem aqueles raríssimos que conseguem fazer algo muito mais difícil… Fazem-nos olhar para trás!

Foi isso que aconteceu naquele dia.

Era “apenas” mais um ensaio para o canal, uma estrada escolhida ao detalhe, as câmaras preparadas, a luz perfeita.

À minha frente estava um Porsche 911 (991.2) GT3 Touring.

Sem asa, sem exuberâncias, sem necessidade de provar fosse o que fosse.

Talvez seja precisamente isso que mais admiro nos ‘Touring’.

É um automóvel que não procura chamar a atenção.

Não grita, ele apenas ‘sussurra’.

E quem sabe escutar percebe imediatamente que está perante uma das obras-primas da engenharia automóvel moderna.

Um boxer com 4.0 litros atmosférico, mais de 500 cavalos, 9.000 rotações e… Caixa manual!

Tudo aquilo que, infelizmente, começa a desaparecer da indústria automóvel.

Mas naquele dia não foi a ficha técnica que me emocionou, foi outra coisa…

Muito mais difícil de explicar; Enquanto conduzia, dei por mim a pensar naquele miúdo que passava horas a folhear revistas de automóveis.

Naquele adolescente que decorava catálogos Porsche.

Naquele jovem adulto que via um 911 passar na estrada e ficava simplesmente a olhar até desaparecer no horizonte.

Durante muitos anos, um Porsche GT3 não era um objetivo, era uma fantasia.

Uma daquelas coisas que pertencem ao mundo dos outros.

Daquelas pessoas que vemos nas revistas, na televisão, ou nas corridas.

Nunca imaginei que um dia pudesse estar sozinho, numa estrada portuguesa, a conduzir um 911 GT3 Touring, com toda a liberdade do mundo para o filmar, fotografar, ouvir e sentir.

Muito menos que alguém me entregasse as chaves dizendo apenas:

“Vai. Aproveita.”

Foi precisamente nesse dia que um ‘momento’ aconteceu.

Parei o carro para mais uma inversão de marcha e… Fez-se silêncio.

Naquele momento senti os olhos encherem-se de lágrimas.

Não porque estivesse perante um Porsche.

Mas porque, durante alguns segundos, percebi o caminho que tinha percorrido até ali.

Lembrei-me dos quase trinta anos passados na banca.

Das noites em que editava vídeos depois do trabalho.

Dos fins de semana passados sozinho a montar câmaras.

Das centenas de gravações feitas sem equipa.

Das críticas… das dúvidas…

Dos momentos em que pensei desistir.

E percebi que aquele automóvel não era um prémio.

Era uma consequência.

A consequência de nunca ter deixado morrer um sonho.

Há quem olhe para um Porsche GT3 Touring e veja apenas um automóvel de centenas de milhares de euros.

Eu vejo algo completamente diferente.

Vejo milhares de horas de trabalho, persistência, sacrifício, todas as decisões difíceis que fui tomando ao longo da vida.

Vejo a coragem de abandonar uma carreira confortável para construir um projeto próprio.

Vejo a prova de que os sonhos não aparecem por acaso, eles constroem-se.

Quilómetro após quilómetro, vídeo após vídeo.

Foi curioso perceber que, depois desse momento, o próprio ensaio mudou.

Passei a conduzir o carro de forma diferente.

Já não queria apenas perceber como travava, como curvava, ou quão rápido acelerava.

Queria simplesmente desfrutar do privilégio de estar ali, porque a certa altura da vida percebemos uma coisa.

Os automóveis extraordinários não se medem apenas pelos números.

Medem-se pelas emoções que conseguem despertar.

E esse GT3 Touring despertou em mim algo que nenhum cronómetro alguma vez conseguirá medir, Gratidão!

A dada altura tive que devolver o carro ao seu feliz proprietário, mas naquele dia levei comigo muito mais do que um ensaio para o canal, levei uma memória que ficará comigo para sempre.

Porque, às vezes, a felicidade não faz barulho.

Não precisa de uma asa gigante.

Nem de uma carroçaria exuberante.

Às vezes apresenta-se da forma mais discreta possível.

Com um seis cilindros boxer atrás das costas, uma caixa manual e um pequeno emblema Porsche no volante.

Nesse dia não chorei por causa de um automóvel, chorei porque, sem me aperceber, estava finalmente a viver a vida que um rapaz sonhou há muitos anos.

E não existe nenhum Porsche capaz de superar essa sensação!