Existem automóveis que admiramos. Existem automóveis que respeitamos… E depois existem aqueles poucos que nos desafiam, nos irritam, nos esgotam e, ainda assim, acabam por conquistar um lugar especial na nossa memória.
O Alfa Romeo 4C Spider pertence a essa raríssima categoria!
Ainda hoje não consigo precisar se foi em 2016 ou 2017. O que sei é que era um sábado de manhã quando cheguei à Estrada da Lagoa Azul, ainda antes do sol ter terminado de acordar a serra. À minha espera estava um pequeno Alfa Romeo amarelo, descapotável, de linhas exóticas e proporções quase irreais.
Pequeno na dimensão, mas gigante na personalidade.
Desde os primeiros metros percebi que aquele não era um automóvel concebido para agradar a toda a gente.
Entrar para o habitáculo exigia quase uma pequena coreografia e sair dele não era muito diferente.
O espaço era exíguo, a suspensão firme, a caixa de dupla embraiagem TCT pouco preocupada em ser suave.
E a ausência de direção assistida lembrava-nos constantemente que aquele carro tinha sido construído para servir a condução e não o conforto.
Hoje, numa era em que quase todos os automóveis tentam filtrar as sensações, proteger-nos da estrada e tornar tudo fácil, o 4C fazia precisamente o contrário.
Obrigava-nos a sentir tudo… Cada irregularidade, cada pedra, cada transferência de massa, cada centímetro de asfalto!
E foi precisamente isso que transformou aquele dia numa das gravações mais difíceis que alguma vez realizei.
Estava sozinho, como tantas vezes acontecia naquela fase do canal.
Sem equipa, sem assistentes, sem drones automáticos… Sem ninguém para ajudar.
Apenas eu, o carro, as câmaras e uma enorme vontade de contar histórias.
Ao longo de várias horas repeti dezenas e dezenas de manobras.
Inversões de marcha (sem direção assistida recordo), reposicionamentos, montagem de câmaras e captação de som.
Novas passagens, mais uma tomada, mais uma tentativa.
Mais uma vez entrar, mais uma vez sair… E depois voltar a entrar… Uf!
Quem conhece o Alfa Romeo 4C sabe que esta simples descrição já parece um exercício físico.
Num dia inteiro devo ter entrado e saído daquele carro mais de cinquenta vezes, ou talvez mais.
Ao final da manhã já sentia os braços cansados, as costas queixavam-se e a convivência com aquele Alfa começava a tornar-se uma prova de resistência.
Mas sempre que a estrada se abria à minha frente e eu acelerava, tudo fazia sentido.
Porque por trás de todas as suas exigências escondia-se algo que os números nunca conseguem explicar.
Alma… Caráter… Personalidade!
O famoso “cuore sportivo” que tornou a Alfa Romeo numa das marcas mais apaixonantes da história do automóvel.
A receita parecia simples; Um chassis monocoque em carbono, pouco mais de 1.000 quilos, motor 1.750 Turbo com 240 cavalos, tração traseira e uma ligação visceral entre homem e máquina.
O resultado era extraordinário!
Não era o automóvel mais potente, longe de ser o mais confortável e nem sequer era o mais rápido em linha reta.
Mas era um daqueles raros automóveis capazes de transformar qualquer quilómetro numa experiência.
Talvez por isso o mercado lhe tenha vindo a dar razão.
Enquanto tantos desportivos modernos perdem valor ano após ano, os Alfa Romeo 4C continuam a ser procurados pelos verdadeiros entusiastas.
Em 2026, exemplares bem conservados e com baixa quilometragem ultrapassam facilmente os 100 mil euros!
O mercado percebeu aquilo que alguns já sabiam desde o primeiro dia.
O 4C não era apenas mais um Alfa Romeo.
Era uma homenagem moderna ao ADN mais puro da marca.
Quando finalmente terminei as gravações e devolvi o carro, recordo-me de um pensamento quase cómico: ‘Já não o podia ver à frente!’
Depois de tantas horas a lutar com ele, a entrar e sair dele, a manobrá-lo, a gravá-lo e a tentar extrair as melhores imagens possíveis, estava absolutamente esgotado.
Mas a verdade é que, passados todos estes anos, continuo a recordar aquele dia com um enorme sorriso.
Porque alguns automóveis conquistam-nos pelo conforto, outros pela velocidade.
O Alfa Romeo 4C Spider conquistou-me pela honestidade. Nunca tentou ser fácil, nunca tentou agradar, nem tão pouco tentou esconder aquilo que era.
E talvez seja precisamente por isso que ainda hoje permanece tão vivo na minha memória.
Tal como aquele sábado na Estrada da Lagoa Azul, um dos dias mais difíceis, mas também um dos mais gratificantes na história do canal!
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