A fotografia que acompanha este texto podia ter sido tirada praticamente em qualquer autoestrada portuguesa, e, infelizmente, em qualquer dia da semana.

Três vias. A da direita praticamente livre. Um automóvel instalado tranquilamente na via do meio e outro a circular ainda mais à esquerda. E eu? Na via da direita, precisamente onde deveria estar.

Assisto a este cenário quase diariamente e há uma pergunta que se impõe: por que razão continuamos a circular desta forma?

A resposta, para mim, é relativamente simples: porque podemos fazê-lo quase impunemente!

O Código da Estrada é claro: devemos circular pela via mais à direita, utilizando as restantes quando as circunstâncias o justificam, nomeadamente para ultrapassar. A via do meio não é uma confortável “via de cruzeiro” e a via da esquerda muito menos.

O problema é que uma parte significativa dos condutores parece desconhecer esta regra. Outros conhecem-na, mas simplesmente não querem saber. E quando durante anos se pratica determinado comportamento sem qualquer consequência, ele acaba por se transformar numa espécie de normalidade.

É aqui que entra a fiscalização….

Imaginem que amanhã os jornais noticiavam que, numa única operação, 200 condutores tinham sido fiscalizados e sancionados por circularem indevidamente na via do meio ou da esquerda.

Tenho poucas dúvidas de que, nos dias seguintes, veríamos muito mais carros a circular pela direita.

Porque a fiscalização não serve apenas para punir. Serve para alterar comportamentos!

E é precisamente aí que considero existir um enorme desequilíbrio na forma como fiscalizamos as nossas estradas.

Grande parte da atenção continua concentrada na velocidade. Radares fixos, radares móveis e operações de controlo. Naturalmente que a velocidade excessiva é um fator de risco e deve ser fiscalizada. Mas segurança rodoviária não pode resumir-se a verificar se alguém circula a 125 ou 130 km/h.

Até porque todos conhecemos o fenómeno: aproxima-se um radar identificado, trava-se, passa-se pelo radar à velocidade regulamentar e, algumas centenas de metros depois, volta-se a acelerar.

Entretanto, outros comportamentos potencialmente perigosos acontecem todos os dias diante dos nossos olhos: ocupação permanente das vias central e esquerda, ultrapassagens pela direita provocadas por quem não liberta a faixa, tailgating, mudanças de direção agressivas, ausência de distância de segurança, utilização do telemóvel e episódios de autêntico road rage.

Onde está a fiscalização destes comportamentos?

O problema mais profundo é a sensação de impunidade que se foi instalando: “eu conduzo como quero porque ninguém me vai incomodar.”

E quando milhares de condutores pensam assim, o resultado é aquilo a que assistimos diariamente.

Não precisamos apenas de mais radares. Precisamos de mais polícia na estrada. Mais fiscalização dinâmica. Mais viaturas descaracterizadas. Mais intervenção perante comportamentos perigosos. E, sobretudo, precisamos que as pessoas percebam que conduzir numa estrada pública implica regras e responsabilidade perante os outros.

Recentemente, o próprio discurso político sobre segurança rodoviária utilizou uma expressão particularmente dura para caracterizar o que acontece nas estradas portuguesas: um cenário próximo de uma “guerra civil” rodoviária.

A expressão pode parecer excessiva. Mas basta olhar para a sinistralidade, para a agressividade de alguns comportamentos e para aquilo a que todos assistimos diariamente para perceber que existe um problema sério.

Esta fotografia parece banal, mas para mim, não é.

É o retrato de uma cultura rodoviária onde demasiadas pessoas confundem hábito com regra e liberdade com ausência de responsabilidade.

A via da direita não é para os lentos,é a via onde todos devemos circular sempre que estiver livre! ESCREVAM!

As restantes existem para ultrapassar e para responder às circunstâncias do trânsito.

Não é uma questão de opinião.

É Código da Estrada.