Ao longo dos últimos anos tive o privilégio de conduzir alguns dos automóveis mais extraordinários do mundo.

Conheci pilotos, engenheiros, alguns colecionadores e dirigentes de marcas.

Pessoas cuja vida gira em torno da indústria automóvel, mas poucas conversas me marcaram tanto como aquela que tive com Christian von Koenigsegg.

À partida, seria fácil ficar impressionado apenas pelo currículo.

Fundador de uma das marcas de hipercarros mais exclusivas do planeta.

Responsável por algumas das maiores inovações da engenharia automóvel das últimas décadas.

Criador de máquinas que desafiam constantemente aquilo que julgávamos possível mas, curiosamente, foi precisamente isso que menos me impressionou.

O que verdadeiramente me marcou foi outra coisa: durante a conversa, deixei de estar a falar com um empresário, muito menos com um milionário, nem sequer com o fundador da Koenigsegg.

Passei simplesmente a falar com um apaixonado por automóveis!

Um verdadeiro petrolhead.

Daqueles que ainda hoje conseguem entusiasmar-se quando falam de um motor bem concebido, que sorriem quando descrevem uma solução técnica, ou que continuam a olhar para um automóvel não como um produto, mas como uma obra de engenharia.

E isso nota-se.

Não é algo que se ensaie, nem que se aprenda em cursos de comunicação.

Vê-se nos olhos! Na forma como responde, na facilidade com que abandona o discurso institucional para falar de automóveis como qualquer um de nós faria numa conversa entre amigos.

Foi aí que percebi uma curiosidade.

Christian nasceu a 02 de Julho de 1972, sendo que eu nasci apenas 7 dias antes, a 25 de Junho do mesmo ano!

Somos ambos caranguejos e durante alguns segundos, achei curioso pensar como duas pessoas da mesma geração puderam viver a mesma paixão de formas tão diferentes.

Enquanto eu passava a infância colado às revistas automóveis, sonhando um dia poder conduzir aqueles carros, Christian sonhava construí-los.

Eu segui uma carreira de quase trinta anos na banca antes de decidir reinventar completamente a minha vida, enquanto ele dedicou praticamente toda a sua existência a transformar um sonho quase impossível numa realidade.

Os percursos não podiam ser mais diferentes, mas havia algo profundamente semelhante.

A paixão!

Aquela paixão genuína que não depende do valor do automóvel, nem do logótipo. muito menos do preço.

Depende apenas daquilo que um automóvel nos faz sentir.

Talvez seja por isso que a Koenigsegg nunca me pareceu apenas um fabricante de hipercarros.

Parece-me uma empresa construída por alguém que continua apaixonado pelo automóvel e isso faz toda a diferença.

Hoje, muitas marcas são geridas por excelentes administradores, gestores ou estrategas.

Mas nem todos são apaixonados por automóveis.

Christian continua a sê-lo e isso sente-se em cada resposta, em cada detalhe, em cada inovação.

Talvez seja precisamente essa a razão pela qual os seus automóveis continuam a desafiar as regras estabelecidas, porque não nasceram de estudos de mercado.

Nasceram da imaginação de alguém que nunca deixou de sonhar.

Quando terminei aquela entrevista, fiquei naturalmente satisfeito por ter tido a oportunidade de conversar com uma figura tão importante da indústria automóvel.

Mas o que verdadeiramente levei comigo foi outra certeza.

Independentemente do sucesso, da notoriedade ou da dimensão da empresa que construiu, Christian von Koenigsegg continua a ser, acima de tudo, um dos ‘nossos’.

Um apaixonado por automóveis!

E talvez seja essa a característica que explica tudo o resto.

Porque, no fundo, os automóveis mais extraordinários do mundo raramente são criados apenas por grandes engenheiros, são criados por pessoas que nunca deixaram morrer o entusiasmo de uma criança e essa, felizmente, continua a ser uma linguagem universal.

A linguagem de todos os verdadeiros petrolheads!