Ao longo da minha vida já conduzi muitos automóveis e algumas dezenas de motociclos. Uns mais rápidos, outros mais lentos. Uns mais memoráveis, outros menos.

Mas poucas experiências ficaram tão gravadas na minha memória como aquela que vivi no dia 13 de Junho de 2017.

E não pelas razões que imaginam….

Naquele dia tinha combinado gravar uma das motos mais especiais que alguma vez passou pelas minhas mãos: uma Energica Ego.

Hoje os veículos elétricos fazem parte do nosso quotidiano, mas em 2017 ainda eram uma raridade. Uma superbike elétrica era quase uma peça de ficção científica!

A Energica Ego custava cerca de 40 mil euros, debitava perto de 150 cavalos e prometia acelerar dos 0 aos 100 km/h em apenas 2,5 segundos!

Era rápida, muuuito rápida e também pesava qualquer coisa como 240 quilos.

Uma combinação respeitável…

Recordo-me de sair de casa completamente equipado para a gravação. Capacete, microfone, câmaras montadas na moto e tudo preparado ao detalhe. Tinha combinado encontrar-me com o meu amigo Vítor Lopes na Estrada da Lagoa Azul, onde iríamos captar as imagens dinâmicas do ensaio.

A ideia era simples; Gravar já parte do discurso durante o percurso entre Linda-a-Velha e Sintra, aproveitando duas perspetivas diferentes das câmaras instaladas na moto.

Tudo corria dentro da normalidade… ou pelo menos parecia.

Há um pormenor importante nesta história: Durante quase duas décadas de motociclismo sempre fui extremamente rigoroso com equipamento de proteção, sempre! Botas incluídas…

Mas naquele dia cometi um erro que ainda hoje me faz sorrir.

Como a Energica não tinha caixa de velocidades nem embraiagem, e consequentemente não existia pedal de mudanças para operar com o pé esquerdo, convenci-me de que poderia facilitar.

Fui de ténis…

Uma decisão aparentemente irrelevante, mas que acabou por mudar completamente o meu dia…

Já perto de Ranholas, no IC19, reparei que uma das alças da mochila que levava às costas andava solta e a abanar constantemente.

Temi que aparecesse nas imagens e então decidi encostar à berma para a compor.

Uma manobra banal, daquelas que fazemos sem pensar e… Parei a moto!

Como qualquer motociclista sabe, por hábito o pé direito permanece normalmente sobre o travão traseiro.

O primeiro pé que vai ao chão costuma ser o esquerdo.

Foi exatamente isso que tentei fazer.

O problema?

Sem eu me aperceber, o atacador do ténis tinha-se enrolado numa peça metálica junto ao pousa-pés!!

Quando tentei apoiar o pé no chão… o pé não saiu e naquele instante percebi imediatamente o que ia acontecer.

Não havia nada a fazer. A moto começou a inclinar, eu tentei contrariar, tentei recuperar, tentei salvar a situação… Mas a física é uma adversária implacável!

E 250 quilos continuam a ser 250 quilos.

Acabei por tombar para o lado, parado, completamente parado!

A primeira e única vez na minha vida que caí de mota e caí sem sequer estar em andamento.

A ironia não podia ser maior.

O problema foi que o pé ficou preso debaixo da Energica.

A moto fez literalmente pivô sobre ele.

Naquele momento só senti dores, muitas dores, mas a ‘quente’ ainda não tinha percebido a dimensão do estrago.

Entretanto pararam algumas pessoas para ajudar.

Conseguimos levantar a moto, ou melhor, acabei eu por explicar como a levantar corretamente.

Mesmo já praticamente dobrado de dores.

Ainda hoje me rio ao pensar nisso.

O homem que tinha acabado de deixar cair uma superbike de 40 mil euros estava a ensinar os outros a levantá-la.

Voltei a montar-me na moto e conduzi-a de regresso ao importador.

Devagar, com muitas dores, mas conduzi.

Quando finalmente cheguei ao destino e coloquei novamente o pé esquerdo no chão, a realidade tornou-se impossível de ignorar.

O pé tinha praticamente duplicado de tamanho e foi nesse instante que percebi.

Estava partido.

Era feriado de Santo António e as urgências de um Hospital não eram propriamente o local onde eu desejava passar o resto do dia.

Mas ainda havia um detalhe melhor, daí a quatro dias tinha um casamento!

E nesse sábado Lisboa decidiu oferecer-nos uma temperatura próxima dos 40 graus.

Resultado?

Enquanto os convidados desfrutavam do calor e da festa, eu passei o dia com um pé engessado, inchado e a amaldiçoar mentalmente um simples atacador.

Muitas vezes perguntam-me qual foi o carro mais rápido que conduzi, qual foi a moto mais impressionante, qual foi o ensaio mais memorável…

A verdade é que alguns dos momentos que ficam para sempre não acontecem por causa da velocidade, da potência ou da tecnologia.

Ficam porque nos recordam que basta um segundo de distração para transformar um dia perfeitamente normal numa história que continuamos a contar quase uma década depois.

E, acima de tudo, porque nos recordam que a experiência é uma coisa extraordinária.

Mas nunca nos torna imunes aos pequenos erros, especialmente aos mais estúpidos!

No meu caso, bastaram uns simples ténis para provar isso.