Há estradas que servem para ligar pontos no mapa.

E depois há estradas que servem para medir homens… e máquinas.

A Serra da Arrábida sempre foi isso para mim.

Um lugar quase sagrado para qualquer pessoa apaixonada por condução.

Porque a Arrábida não perdoa; o traçado é técnico, exigente, rápido em certos pontos, apertado noutros.

Há mudanças de relevo, curvas cegas, compressões, curvas longas onde um carro revela verdadeiramente aquilo que vale.

E talvez por isso eu tenha criado uma ligação tão forte com aquela serra ao longo dos anos.

Conduzi ali alguns dos carros mais especiais da minha vida.

O inesquecível Alfa Romeo Giulia Quadrifoglio, algures em 2017, num vídeo que ainda hoje muitos seguidores me falam dele como um dos mais memoráveis do canal.

Aquele V6 biturbo tinha uma alma muito própria.

Um carro nervoso, sempre de ‘faca nos dentes’!
Emocional, quase indomável às vezes… Mas profundamente apaixonante.

Também lá conduzi o pequeno e furioso Hyundai i20N!

Um daqueles automóveis que nos relembra que diversão não depende obrigatoriamente de potência absurda.

Depende de ligação, de comunicação, de vontade de atacar cada curva.

Houve também o meu Audi TT-S Roadster preparado pela Tech Dynamics: 365 cavalos!

Um autêntico míssil.

Ainda hoje me lembro da violência daquele motor naquela serra.

A facilidade com que ganhava velocidade era quase absurda.

E recordo esse dia com particular carinho porque tive ao meu lado o meu amigo João Meneses, que me ajudou a gravar e fotografar o carro.

O João acabaria também por ser o responsável por algumas das mais emblemáticas fotografias do Porsche 911 GT3 Touring na Serra de Montejunto.

E talvez só quem vive estes momentos perceba o valor destas amizades construídas à volta da paixão automóvel.

A Arrábida viu-me conduzir muitos outros carros.

Audi TT RS Roadster.
Honda Civic Type R.
Audi R8 V10.
Jaguar F-Type.
Mercedes CLA45 S Shooting Brake.

Tudo carros rápidos, alguns deles, muito rápidos.

E depois de tantos anos, de tantos ensaios e de tantas experiências… eu achava genuinamente que sabia o que era “andar depressa” naquela serra, achava que já conhecia os limites, pelo menos os meus e os dos automóveis.

Até ao dia em que apareceu um Nissan GT-R R35.

Um modelo de 2011, importado por mim para um cliente.

530 cavalos de origem… mas naquele caso já reprogramado para cerca de 600 cavalos.

E honestamente? Nada me preparou para aquilo que aconteceu naquele dia.

Porque há carros rápidos e depois há carros que reescrevem completamente a nossa perceção sobre aquilo que é velocidade.

Lembro-me como se fosse hoje da sensação.

Quanto mais eu andava com aquele carro… mais confiança ele me transmitia.

Era quase perturbador!

A cada curva, a cada travagem, a cada aceleração… eu saía de lá com a sensação de que afinal ainda havia muito mais potencial.

“Eu podia ter travado mais tarde.”
“Podia ter acelerado mais cedo.”
“Esta curva dava para fazer muito mais depressa.”

E o mais impressionante era precisamente isso.

O GT-R parecia desafiar constantemente aquilo que o meu cérebro considerava lógico.

A capacidade daquele carro colocar potência no chão era simplesmente absurda.

A tração, a velocidade de reação da caixa,a forma quase violenta como disparava à saída das curvas.

Tudo naquele automóvel parecia funcionar numa dimensão acima daquilo que eu conhecia até então.

E talvez tenha sido aí que percebi verdadeiramente porque é que o GT-R ganhou o estatuto quase mítico que tem hoje.

Porque aquele carro não impressiona apenas pelos números, impressiona pela forma como destrói referências.

Ele literalmente… recalibra-nos!

Reprograma completamente aquilo que achávamos ser possível fazer com um automóvel numa estrada como a Serra da Arrábida.

E o mais curioso… é que quanto mais depressa andávamos, mais o carro parecia dizer:

“Confia em mim. Ainda consigo mais.”

Mas ao mesmo tempo… o GT-R também exige respeito.

Porque é um carro que recompensa muito acima do normal… mas que também exige dotes de condução na directa proporção!

E talvez seja exatamente isso que o torna tão especial.

Há carros rápidos que fazem tudo por nós e depois há carros como o GT-R.

Máquinas que nos desafiam, que nos obrigam a crescer enquanto condutores, que nos mostram que os limites que julgávamos conhecer… afinal eram apenas o início.

Ainda hoje penso nesse dia na Arrábida.

No som daquele V6 Biturbo, na brutalidade das acelerações, na forma como aquele carro esmagava reta após reta e devorava curva após curva com uma facilidade quase irreal.

Mas sobretudo… na sensação muito clara de que aquele Nissan tinha acabado de reescrever tudo aquilo que eu conhecia sobre andar depressa.

Porque a verdade é esta:

Nós achamos sempre que já sabemos o que é um carro rápido… Até aparecer o próximo!

E percebermos que afinal… ainda não sabíamos nada.