Há estradas bonitas, há estradas rápidas, há estradas técnicas…
E depois… há lugares que deixam de ser estradas e passam a fazer parte da nossa própria história.

Há lugares que não aparecem nos mapas da mesma forma para toda a gente.

Para uns, a Serra de Montejunto é apenas mais uma serra aqui perto de Lisboa.
Uma estrada secundária, cheia de curvas, árvores, nevoeiro nas manhãs frias e silêncio…

Para mim… nunca foi apenas isso.

A Serra de Montejunto tornou-se, ao longo dos últimos anos, quase um santuário emocional da minha vida enquanto apaixonado por automóveis e criador de conteúdo.

E curiosamente, tudo começou da forma mais improvável possível, creio que foi algures em 2015.
Um frio dia de fevereiro, ainda escuro, bem antes do nascer do Sol…

Saí cedo de casa para ir gravar um carro absolutamente banal: um Audi A4 2.0 TDI de 150 cavalos.

Hoje olho para trás e sorrio ao pensar nisso, porque não era o carro que importava.

Era o momento, mas sobretudo, a descoberta!

Era aquela sensação quase infantil de alguém que tinha encontrado um cenário perfeito para dar vida àquilo que sentia pelos automóveis.

Naquela altura, fazia tudo sozinho; Montava câmaras, colocava tripés à beira da estrada, passava com o carro vezes sem conta para apanhar o plano “certo”.
Corria de um lado para o outro para ajustar ângulos.
Gravava sons e improvisava… Muito!
Errava e voltava a repetir.

E depois chegava a casa completamente exausto… mas feliz.

Lembro-me perfeitamente da magia de descarregar o footage e descobrir pequenos momentos inesperados: Reflexos de luz, sons, passagens de câmara que tinham ficado melhores do que eu imaginava, pessoas que ali passavam e eu nem me dava conta!
Pequenos acidentes felizes que davam personalidade aos vídeos.

Tudo era genuíno, cru, imperfeito, mas profundamente verdadeiro.

E talvez tenha sido exatamente isso que criou uma ligação tão forte entre mim… e aquela serra.

Desde então, a Serra de Montejunto deixou de ser apenas um local de gravação.

Transformou-se num lugar de peregrinação, um lugar onde fui vivendo alguns dos momentos mais especiais da minha vida enquanto ‘petrolhead’.

Recordo-me perfeitamente dos Hyundai i30N. Em Montejunto gravei as duas gerações…

Aquele carro mudou muita coisa no mundo dos hot hatch modernos. E naquela serra… parecia ter sido criado para aquele cenário.

Os ‘pops and bangs’ ecoavam montanha fora, as reduções de caixa enchiam o ar e a dianteira agarrava-se ao asfalto com uma violência deliciosa. Era impossível não sorrir.

Recordo o radical Caterham 485R!

E honestamente… acho que nunca me esquecerei daquele dia.

Plena primavera.
Pólens por todo o lado.
A minha rinite alérgica completamente descontrolada; Olhos a arder, espirros constantes, cara ao vento durante horas.

Mas curiosamente… nem isso interessava.

Porque havia algo quase terapêutico em conduzir aquele pequeno monstro ultraleve numa estrada como Montejunto.

Sem filtros, sem isolamento, sem artificialismos.

Só homem, máquina e estrada.

Talvez seja isso que muitos automóveis modernos perderam.

Depois houve um tal de Stelvio Quadrifoglio.

O meu Stelvio Quadrifoglio.

Ainda hoje considero aquele vídeo um dos mais especiais que já fiz.

Aquele V6 de origem Ferrari… a ecoar por entre árvores e vales… tinha qualquer coisa de quase espiritual.

Há sons que não se ouvem apenas com os ouvidos: Sentem-se!

E aquele carro tinha exatamente isso.

Mas depois vieram os V8.

Meu Deus… os V8!

Porque há motores que fazem barulho e depois há motores que criam memórias como tatuagens!

Recordo-me perfeitamente do Corvette C7 atmosférico.

Aquele enorme V8 americano parecia quase deslocado naquela serra europeia, estreita, técnica e sinuosa. Mas talvez tenha sido exatamente isso que tornou a experiência tão memorável.

Havia algo de visceral naquele carro; Bruto mas muito honesto.
Quase selvagem.

O som daquele V8 a ecoar por Montejunto era absolutamente inacreditável.

Ainda hoje consigo fechar os olhos e ouvir aquelas passagens em aceleração, o motor a subir de rotação com aquela voz metálica e musculada tão característica dos grandes motores atmosféricos americanos.

Não havia filtros, não havia sons artificiais a sair pelas colunas…

Era combustível, cilindrada e explosões mecânicas a ressoar pela montanha inteira.

E depois… o inesquecível Mercedes C63 S Cabrio… E que cabrio!

Talvez um dos vídeos mais especiais que ali gravei.

Que banda sonora absolutamente obscena!

Ainda hoje acredito que poucas motorizações modernas conseguiram alcançar o impacto emocional daquele V8 biturbo AMG.

Conduzir aquele carro de capota aberta na Serra de Montejunto foi uma experiência quase cinematográfica.

O som invadia tudo! As reduções, os ‘rebentamentos’ no escape.
Aquela violência mecânica típica da AMG.

Parecia que toda a serra respirava ao ritmo daquele motor.

Há automóveis rápidos e há automóveis bonitos.

E depois há automóveis que nos ficam gravados na pele.

O Corvette C7 e o C63 S Cabrio pertencem exatamente a essa categoria.

Máquinas imperfeitas talvez, excessivas seguramente, mas profundamente emocionais.

E num mundo automóvel cada vez mais silencioso, filtrado e digital… sinto um privilégio imenso por ter vivido estes automóveis naquele lugar e naquele tempo.

Tal como o meu Bentley Supersports de 2010.

Um autêntico míssil de luxo e brutalidade mecânica.

Um carro absurdamente excessivo… e exatamente por isso tão memorável.

Mas se há um momento que ficará para sempre gravado dentro de mim… foi o dia do Porsche 911 (991.2) GT3 Touring.

Ainda hoje tenho dificuldade em explicar aquilo que senti naquele dia.

Porque há carros que nos impressionam e depois há carros que nos desmontam emocionalmente.

Aquele GT3 Touring fez-me perceber porque é que certas máquinas ultrapassam completamente a lógica racional.

Era o carro, a estrada, o tempo perfeito naquele dia, a luz, o som daquele boxer às 9.000rpm!

Era o privilégio quase irreal de alguém que cresceu apaixonado por automóveis… e que um dia se viu ali, naquela serra, a conduzir um dos carros com que sonhou uma vida inteira.

Mas a verdade é que houve um momento naquele vídeo em que eu literalmente… chorei.

E chorei genuinamente.

Sem guião, sem personagem, sem filtros…

Foi um daqueles raríssimos momentos da vida em que a emoção simplesmente nos atropela.

Lembro-me perfeitamente de pensar, mais tarde, já em casa, se deveria cortar aquele momento da edição.

Pensei várias vezes nisso.

“Será demasiado?”
“Será exagerado?”
“Será que faz sentido expor isto?”

Mas depois percebi uma coisa muito importante.

Aquele momento era tão somente…verdadeiro.

E se há algo que sempre quis transmitir nos meus vídeos foi exatamente verdade.

Por isso deixei ficar.

E ainda bem que o fiz…

Porque aquilo que aconteceu depois ultrapassou completamente tudo aquilo que eu poderia imaginar.

O vídeo tornou-se um dos mais especiais de toda a história do canal.

Teve dezenas de milhares de visualizações e centenas de comentários.

Mas mais do que números… teve impacto!

Ainda hoje, mais de oito anos depois de o ter gravado, continuam a existir pessoas que me falam daquele vídeo.

“Pedro… aquele vídeo do GT3 Touring…”

E depois contam-me que choraram comigo, que sentiram exatamente a mesma emoção, que sentiram como se estivessem sentados dentro do carro comigo naquela estrada.

E talvez tenha sido aí que eu percebi verdadeiramente uma coisa: Os automóveis nunca foram apenas automóveis.

Pelo menos para alguns de nós. São memórias, sonhos, conquistas, sonhos de infância, são até liberdade!

E naquele dia, naquela serra, aquele Porsche deixou de ser apenas um carro.

Transformou-se numa experiência humana profundamente emocional.

Talvez até tenha sido o vídeo que mais vidas impactou até hoje em todo o meu percurso.

E pensar que tudo isso aconteceu numa estrada perdida da Serra de Montejunto… continua a arrepiar-me.

Porque quem ama verdadeiramente automóveis sabe que isto nunca foi apenas sobre potência, números ou performance.

É sobre memória, sobre emoção… É sobre lugares.

E poucos lugares me deram tanto como a Serra de Montejunto.

Ali ficaram gravados alguns dos meus melhores vídeos.

Mas acima disso… ficaram gravadas partes da minha própria vida.

A minha inesquecível Mercedes E63 S também passou por lá…

E ainda hoje acredito que foi um dos melhores automóveis que tive até hoje.

Aquela mistura impossível de luxo, brutalidade e presença, fazia daquele carro algo quase intimidante.. Uma Station com mais de 600cv!

E Montejunto parecia compreender isso.

Há estradas que expõem defeitos, outras revelam qualidades.

Montejunto revela caráter.

Talvez por isso tantos dos vídeos que os meus seguidores ainda hoje recordam com carinho tenham nascido ali.

Porque aquela serra nunca foi apenas cenário.

Era na realidade uma personagem principal.

Era ambiente, emoção, silêncio, nevoeiro nas manhãs frias.

Era o cheiro da vegetação, era a sensação de estar sozinho no mundo com um automóvel e uma estrada pela frente.

Num tempo onde tudo se tornou rápido, descartável e artificial… continuo a acreditar que alguns lugares têm alma.

E para mim… a Serra de Montejunto terá sempre uma.

Porque foi ali, entre curvas, amanheceres gelados e motores a ecoar pela montanha… que muitos automóveis deixaram de ser apenas carros.

E passaram a ser as mais belas memórias.


Colaboração fotográfica by João Meneses Photography